Daniela Risso — Psicologia & Psicanálise ← Voltar ao site

Ensaios & Escritos · Ensaio V

O mal-estar na sala de reunião.

Daniela Risso Outubro de 2026 4 min de leitura

Algumas pessoas chegam ao consultório dizendo que estão cansadas. Algumas não conseguem dormir. Outras estão irritadas, ansiosas ou sentem que perderam o prazer por coisas de que antes gostavam.

Muitas vezes, durante a conversa inicial, o trabalho aparece.

Não necessariamente porque a pessoa não goste do que faz. Às vezes, ela escolheu aquela profissão, construiu uma carreira, sente orgulho do caminho que percorreu. Ainda assim, alguma coisa começou a pesar.

O trabalho segue depois do expediente. Continua nas mensagens respondidas durante o jantar, na reunião que se repete mentalmente antes de dormir, na preocupação que acompanha o fim de semana.

E, aos poucos, vai ocupando espaço demais.

Foi a partir dessa repetição que escrevi, no primeiro ano da minha formação em Psicanálise no Instituto Sedes Sapientiae, O mal-estar na sala de reunião: o que tem a Psicanálise a dizer sobre o sofrimento no ambiente de trabalho?

O trabalho ocupa um lugar importante na nossa vida. É fonte de sustento, mas pode ser também realização, reconhecimento, pertencimento e uma parte importante daquilo que somos.

Talvez por isso seja tão difícil perceber quando alguma coisa deixa de fazer bem.

A pessoa promete a si mesma que aquela fase vai passar. Depois daquele projeto, vai descansar. Depois da promoção, as coisas vão melhorar. Quando a equipe estiver completa, terá mais tempo.

Mas, às vezes, esse momento nunca chega.

É claro que existem condições de trabalho que produzem sofrimento: jornadas excessivas, metas impossíveis, relações violentas, ambientes marcados por pressão e medo. Nem todo sofrimento deve ser transformado em uma questão individual.

Mas existe uma outra pergunta que também me interessa: por que, algumas vezes, continuamos sustentando uma forma de viver que sabemos estar nos fazendo mal?

Não há uma resposta única.

Para algumas pessoas, o trabalho é também um lugar de valor e reconhecimento. Para outras, parar pode trazer uma sensação difícil de enfrentar. Há quem tenha aprendido, desde muito cedo, que precisa corresponder, dar conta, ser indispensável.

E talvez seja por isso que simplesmente dizer “aprenda a dizer não” nem sempre seja suficiente. Às vezes, é preciso compreender o que está em jogo para cada um quando dizer não parece impossível.

Quando descansar produz culpa.
Quando não estar ocupado parece uma perda de tempo.
Quando o trabalho deixa de ser uma parte importante da vida e começa, pouco a pouco, a ocupar o lugar da própria vida.

Não acredito que exista uma fórmula para encontrar o equilíbrio perfeito entre trabalho e vida pessoal. Talvez porque a vida não funcione tão bem por fórmulas.

Mas acredito que vale a pena escutar o momento em que alguma coisa começa a pesar.

Porque o sofrimento nem sempre pede uma solução imediata. Às vezes, antes de qualquer decisão, ele pede que consiga se perguntar: o que está acontecendo comigo?

Uma análise pode começar justamente aí.

Na possibilidade de falar sobre aquilo que ainda não sabemos explicar. De olhar com mais cuidado para nossas escolhas, nossos medos e para os lugares que fomos ocupando sem perceber.

Às vezes, a reunião termina.

Mas alguma coisa dela continua acontecendo dentro de nós, produzindo muito sofrimento.