Ensaios & Escritos · Ensaio IV
Como quem cuida se cuida?
Enquanto organizava materiais do consultório, encontrei uma relíquia: em 2004, ainda durante minha graduação em Psicologia, comecei a pesquisar uma questão que, de alguma maneira, continua presente na minha trajetória profissional até hoje. O que acontece com uma mãe quando seu filho adoece? Diante de algo que ela não consegue controlar?
Meu Trabalho de Conclusão de Curso, realizado na Universidade São Marcos, recebeu o título A função materna no câncer infantil — com a palavra, a mãe. A proposta era compreender a experiência da criança diante do diagnóstico e da possibilidade da morte. Mas, durante a pesquisa, percebemos que havia uma personagem fundamental nessa história que também precisava ser escutada: a mãe.
Era ela quem acompanhava o diagnóstico, os tratamentos, as consultas, as intercorrências e toda a trajetória da doença. Era também quem, muitas vezes, fazia a mediação entre a criança e a equipe médica.
Existe uma imagem social muito difundida da maternidade — aquela que associa a boa mãe à mulher que consegue proteger, sustentar, resolver e permanecer forte diante das dificuldades. Meu trabalho partia justamente da percepção de que, diante de uma doença grave, tanto a criança quanto os pais podem ter dificuldade de falar sobre seus medos. Na tentativa de proteger o filho, os adultos evitam determinadas conversas — e aquilo que não encontra palavras ganha espaço na imaginação e na vida psíquica.
Uma das questões que mais me chamou atenção naquela pesquisa foi a presença da culpa materna. Quando algo acontece com um filho, é comum que uma mãe procure imediatamente uma explicação em si mesma:
Será que eu fiz alguma coisa errada?
Será que deveria ter percebido antes?
Será que poderia ter evitado?
Será que fui uma boa mãe?
Encontrei referências a mães que, diante de problemas relacionados à saúde do bebê, podiam sentir-se culpadas e incapazes, como se a doença representasse uma falha em sua própria maternidade.
Essa ideia me parece especialmente importante porque a culpa materna não aparece somente diante de uma doença grave. Ela pode estar presente em situações muito mais cotidianas. E talvez uma das maiores dificuldades da maternidade contemporânea seja justamente esta: a pressão social de que deveríamos saber fazer tudo isso sem falhar.
Existe uma diferença importante entre ser mãe e ser apenas mãe. Uma mulher continua tendo desejos, medos, ambições, sexualidade, frustrações, projetos e conflitos depois que um filho nasce. Mas a maternidade pode ocupar um espaço tão grande que, às vezes, aquilo que diz respeito à mulher vai ficando silenciosamente em segundo plano.
E talvez seja por isso que tantas mulheres tenham dificuldade de falar sobre determinados sentimentos. Porque existe uma expectativa de que uma boa mãe seja sempre grata.
Sempre disponível.
Sempre amorosa.
Sempre paciente.
Sempre presente.
Mas a experiência humana não funciona assim.
É possível amar e estar cansada.
É possível querer estar perto e desejar ficar sozinha.
É possível sentir felicidade e saudade da vida anterior.
É possível amar profundamente um filho e não gostar de todos os aspectos da maternidade.
Essas contradições não anulam o amor. Elas fazem parte da experiência humana. A maternidade precisa ser compreendida não apenas a partir do que se observa externamente, mas também a partir da vida psíquica da mulher: seus medos, conflitos, fantasias, perdas e formas de elaborar aquilo que está acontecendo.
Mais de vinte anos depois, essa perspectiva continua fazendo sentido para mim. Porque muitas vezes uma mulher chega ao consultório dizendo: "Eu não sei o que está acontecendo comigo." É aí que uma análise pode começar. Não oferecendo respostas prontas sobre como ser uma boa mãe, uma boa mulher ou uma boa profissional — mas criando um espaço onde ela possa finalmente falar sem precisar desempenhar nenhum desses papéis.
Cuidar não significa deixar de precisar de cuidado. E ser mãe não significa deixar de ser mulher. Uma mulher pode ser profundamente dedicada aos seus filhos e, ainda assim, precisar falar sobre sua própria história, seus desejos, seus medos e suas escolhas. Pode precisar falar sobre aquilo que não consegue contar para ninguém, admitir sentimentos que considera inadequados, descobrir que não existe uma maneira perfeita de viver a maternidade.
É curioso olhar para um trabalho acadêmico escrito no início da minha trajetória profissional e reconhecer nele algumas das perguntas que continuam me acompanhando. Naquele momento, eu queria compreender a experiência psíquica de uma mãe diante da doença do filho. Hoje, sigo interessada por aquilo que acontece internamente com as mulheres quando a vida exige delas mais do que deveriam sustentar — e a maternidade continua sendo um desses lugares.
Talvez porque ser mãe seja, entre tantas outras coisas, também se deparar constantemente com os próprios limites. E reconhecer esses limites não é fracassar. É reconhecer-se humana.